segunda-feira, 12 de março de 2012

Tristeza (Fagundes Varela)

Minh'alma é como o deserto
De dúbia areia coberto,
Batido pelo tufão;
como a rocha isolada
Pelas espumas banhada,
— Dos mares na solidão. —


Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!


Roem-me atrozes idéias,
A febre me queima as veias,
A vertigem me tortura!...
Oh! por Deus! quero dormir,
Deixem-me os braços abrir
Ao sono da sepultura!


Despem-se as matas frondosas,
Caem as flores mimosas
Da morte na palidez:
Tudo, tudo vai passando,
Mas eu pergunto chorando
— Quando virá minha vez?


Vem, oh virgem descorada,
Com a fronte pálida ornada
De cipreste funerário,
Vem! oh quero nos meus braços
Cerrar-te em meigos abraços
Sobre o leito mortuário!


Vem oh morte! a turba imunda,
Em sua miséria profunda,
Te odeia, te calunia,
— Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria.


Quero morrer, que este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel;
Porque meu seio gastou-se,
Meu talento evaporou-se
Dos martírios ao tropel!


Quero morrer: não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançar ao chão,
Do pó desprender-me rindo
E as asas brancas abrindo
Lançar-me pela amplidão!


Oh! quantas loiras crianças
Coroadas de esperanças
Descem da campa à friez!...
Os vivos vão repousando
Mas eu pergunto chorando:
— Quando virá minha vez? —


Minh'alma é triste, pendida,
Como a palmeira batida
Pela fúria do tufão;
É como a praia que alveja;
Como a planta que viceja
Nos muros de uma prisão!

Ao perder alguém muito querido, uma pessoa que estava em nosso lado o tempo todo e mesmo assim sentíamos tão longe e ao mesmo tempo tão perto, adquirimos para nós um sentimento que ninguém vê ninguém entende e ninguém imagina.
As pessoas que estão em nosso redor sabem que estamos tristes, mas não sabem a intensidade dessa tristeza, cada pensamento, cada noite sem dormir, cada momento que nos trás lembranças que machucam ainda mais. Não fazem idéia de que quando estamos rindo é que na verdade queremos chorar por não ter AQUELA pessoa ali junto a nós. Quando vemos todos juntos e reunidos temos um aperto no peito como um grito de agonia querendo atacar tudo e a todos, por não ter AQUELA pessoa unida a nós.
A saudade é o pior sentimento que se possa existir, pois ela nunca diminui, só aumenta com o passar do tempo. Dizer que temos que aceitar ou se conformar, é o mesmo que dizer:
ESQUEÇA ESSA PESSOA, FAÇA DE CONTA QUE ELA NUNCA EXISTIU!
Como se conformar em ter perdido alguém que amamos tanto, uma perda que não tem volta, que somente nos alimentaremos por lembranças ou desabafos como este.
Por mais que tentamos demonstrar força e conformidade perante as outras pessoas, sabemos que tudo não passa de um teatro, sabemos que por dentro estamos com parte do corpo podre e triste, e que se não houvesse mais ninguém a quem cuidarmos, desejaríamos a morte junto a esta que nos deixou.
Cada foto, cada imagem, cada lembrança e cada fato que esteja relacionado à pessoa é uma dor, uma saudade. Chorar não resolve, pois nunca resolveu desabafar só aliviam o momento, mas não o sentimento. Saber que tudo poderia ser diferente de alguma maneira aumenta ainda mais a dor, querer voltar no tempo e mudar o destino com nossas próprias mãos só aumenta a agonia.
Mas esses pequenos detalhes as pessoas não enxergam, não sentem como nós. Elas sentem a falta à saudade, nós sentimos a dor, o desespero, a tristeza e tudo isso em silêncio, em prantos com a cabeça no travesseiro ou os olhos em uma única foto.
Somente o que nos resta, é nos contentarmos com as lembranças, pois ela será nossa única companheira para brigar contra a saudade.
Mas esquecer, não chorar, se conformar ou aceitar, isso nunca, isso impossível pra quem ama.
E uma ofensa de quem isso cobra.